Em julho de 2004 fiz uma viagem que posso chamar de aventura. Decidi realizar um sonho sozinho. Até tentei buscar companhia, mas não é todo mundo que tem pique e disposição para encarar uma empreitada dessas.
Destino: Bolívia, Peru, Chile e Argentina
Quando: julho de 2004 (inverno rigoroso, temperaturas entre -2 e 8 graus)
Motivo: Desbravar a América do Sul sozinho utilizando transportes terrestres e fazendo amizades no caminho.
 |
| Vista do hotel que me hospedei em Corumbá/MS |
Hospedagem: Não me recordo o nome de nenhum albergue ou pousada que me hospedei, não anotei nada na época e já se vão 11 anos.
Duração da viagem: 20 dias
Gasto médio: Gastei algo em torno de 650 dólares contando com tudo, desde a saída de Belo Horizonte até o retorno.
Planejamento: Aproximadamente uns 3 meses pesquisando em sites de mochilão, principalmente os fóruns do www.mochileiros.com que me ajudou muito na ocasião.
Esse tipo de viagem sempre suscita alguns questionamentos. As pessoas vivem perguntando: Mas você foi sozinho? Gastou quanto? É perigoso? Etc... etc...
 |
| Fronteira Brasil e Bolívia em Puerto Suarez e Corumbá |
Primeiro conselho que eu dou pra quem quer fazer uma viagem desse tipo é se planejar muito, conversar com as pessoas, buscar na internet o máximo de informação possível, e montar um roteiro de viagem. Outra coisa importante é ter uma mochila boa, nesse tipo de aventura não dá pra usar mala ou bolsas. A mochila te dá agilidade, e como você troca muito de hospedagem, isso faz muita diferença. A minha mochila tem algo em torno de 60 litros.
Comecei a viagem em Belo Horizonte pegando um ônibus na rodoviária rumo a Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. São 22 a 24 horas de viagem, é preciso ânimo para fazer isso. Ao chegar em Campo Grande, poucas horas depois peguem outro ônibus para Corumbá/MS, mais 6 horas de ônibus. Aí se chega a fronteira do Brasil com a Bolívia. Essa viagem é interessante, a paisagem corta no meio a região do pantanal. Chegando em Corumbá procurei o lugar mais barato possível apenas para passar uma noite. Não posso afirmar que Corumbá não há nada para fazer, só me lembro de ter saído a noite a uns barzinhos e voltei cedo pra dormir e acordar bem disposto no outro dia.
 |
| Fila para pegar o trem da morte |
No outro dia o "trem da morte" sai cedo rumo a Santa Cruz de La Sierra. É preciso acordar muito cedo e ir de taxi até a fronteira onde se atravessa a pé. Um fato curioso, fica aí uma dica preciosa, é que as coisas na Bolívia são meio avacalhadas, e ninguém te para quando você entra a pé no país, mas você precisa entrar numa casinha amarela para carimbar seu passaporte, senão você terá sérios problemas no trem da morte. Eles vão pedir seu passaporte e e senão tiver o visto eles vão te pedir a primeira propina. Não aconteceu comigo, mas vi isso acontecendo. Depois você vai até a estação em Porto Quijaro. Nesse trem você tem algumas categorias, e meu conselho é: NÃO ECONOMIZE NESSE MOMENTO! Pague a passagem mais cara, ou pelo menos a
 |
| No caminho vai se fazendo amizades, todos no mesmo "barco" |
 |
| A todo momento o trem para e é inundado por pessoas vendendo as coisas, a culinária boliviana não me traz boas lembranças. |
segunda mais cara, que na verdade é muito barato para os nossos padrões. Nunca, jamais vá no vagão mais barato... as pessoas vão em pé, o cheiro é podre e os relatos de assaltos são uma constante. Eu fui na categoria "coche-cama", mas não é cama, é equivalente a um semi-leito no Brasil, a cadeira deita mais, etc. Mas cometi o "erro" de andar no trem e ir nas outras categorias quando o trem parava, e realmente é surreal como pessoas conseguem viajar daquele jeito. (Vou ficar devendo a informação de como eu comprei a passagem, não me lembro bem, mas acho que foi na hora mesmo, tipo 1h antes do embarque). Não vacile, a todo
 |
| Avenida principal em frente a estação ferroviária |
momento se ouve relatos de assaltos na Bolívia, inclusive dentro do trem em todas categorias, durma com um olho aberto, se possível amarre sua bagagem no seu braço. Essa experiência é para quem tem muito pique e está disposto a vivê-la. Não sugiro para medrosos e mulheres desacompanhadas, a sensação que se tem é que a todo momento você está sendo observado por eles. A Bolívia é um país que tem muitas dificuldades financeiras, e nós brasileiros somos vistos por eles como pessoas que tem grana.
 |
| Na minha mão esquerda folhas de coca para suportar a altitude e na mão direita bicabornato de sódio para ajudar a fazer a "goma" e ficar mascando durante a viagem até La Paz |
 |
| ônibus que leva até La Paz, as bagagens vão amarradas em cima |
Quando o trem parte são 16 horas até chegar em Santa Cruz de La Sierra. Santa Cruz de La Sierra é uma cidade ainda de baixa altitude, industrial e sinceramente não vi muitos atrativos que velham a pena ser visitados. Ouvi pessoalmente a história de uma dupla de amigos brasileiros que foram assaltados pela polícia, isso mesmo, pela polícia (talvez fossem pessoas se passando por policiais) quando chegaram em Santa Cruz, ficaram rodando com eles de carro e depois soltaram eles perto da rodoviária, todo cuidado é pouco. Os caras ficaram extremamente tristes e tiveram que
 |
| Uma parada no meio do altiplano boliviano para um chá de coca |
voltar para o Brasil.
Vamos parar de falar de coisa ruim e falar de coisa boa. A Bolívia é um país interessantíssimo para se visitar, uma cultura enraizada muito rica e atrativos naturais e históricos de grande valia. E é extremamente barato, chega a ser constrangedor o preço de algumas coisas como hospedagem, alimentação, me lembro de ter jantado com bebida e pago algo em torno de 5 a 8 reais. Hospedagem em torno de 20 a 30 reais.
 |
| Centro de La Paz |
Saindo de Santa Cruz a noite são 16 horas de ônibus subindo a cordilheira dos Andes até La Paz, a capital boliviana. Aqui sim, vale a pena parar e ficar uns 3 ou 4 dias. Muita coisa pra fazer em La Paz e no seu entorno. Abaixo algumas fotos de La Paz, perceba os picos nevados ao fundo (nunca estão sem neve).
 |
| Calle del Comercio |
 |
| Catedral de La Paz |
 |
| La Paz vista de cima por uma estrada lateral |
Uma temperatura agradável na casa dos 4, 5 graus propiciou passeios muito interessantes, sempre muito bem agasalhado por toda a região. La Paz tem uma noite legal também, me lembro de ter saído a barzinhos e até a uma boate e me diverti bastante com alguns colegas que tinha acabado de fazer do interior de São Paulo e um de Goiânia.
 |
| Eu usando um poncho feito com lã de lhama |
Um dos passeios mais sensacionais que fiz foi num sítio arqueológico chamado Tiwanaku. Trata-se de um sítio arqueológico, um dos mais importantes que precederam a civilização Inca, e está extremamente bem conservado, mas foi habitado há 1.800 anos antes de Cristo. É muita história. Abaixo algumas fotos:
 |
| Vale muito a pena conhecer esse sítio arqueológico |
Fiquei 3 dias em La Paz e foram extremamente proveitosos.
 |
| A todo momento bolivianos tocando seus instrumentos |
Saindo de La Paz de ônibus fui até Copacabana, cidade fica na margem do lago Titicaca. Este é o lago em mais alta altitude do mundo, algo em torno de 4.000 metros de altitude, nesse dia eu já estava mais habituado, mas em La Paz, 3.500 metros, eu sofri um pouco com a altitude, realmente faz diferença pra quem não está acostumado. O lago titicaca é formado pelo degelo das montanhas que circundam o lago. É lindo demais, tem gente que dorme em Copacabana, eu optei por seguir viagem, mas consegui fazer um passeio a ilha do sol, que fica no lago e tem um visual maravilhoso. Abaixo algumas fotos:
 |
| Minha família Boliviana rsrsrs (brincadeira) |
 |
| É lindo demais o lago... cartão postal |
 |
| Embarcações feitas de totora (uma espécie de capim, pesquise no google) |
O povo boliviano é hospitaleiro, gosta dos brasileiros, mas a todo momento eles pedem uma "plata", como por exemplo para registrar a foto ao lado, tive que fazer um agrado!
Esse passeio de barco até a ilha do sol é muito lindo. Dizem que existe uma tal de ilha da lua, mais longe, mas essa não deu pra ir, não tive tempo, pois realmente nesse momento eu já começava a ficar ansioso para atravessar a fronteira.
Do outro lado do lago já é a fronteira com o Peru, e um passeio inesquecível que eu fiz foi as ilhas flutuantes de PUNO, já no lado peruano. Nunca pensei que fosse existir um lugar assim, aqui vou descrever rapidamente, mas quem quiser pesquisar mais é só bater no google. São uma espécie de tribo que vive em ilhas flutuantes dentro do lago titicaca. Sim, ilhas flutuantes, feitas de totora (uma espécie de mato). Como elas flutuam, elas nunca estão no mesmo local. É simplesmente incrível, só vendo mesmo para acreditar. Me lembro de um momento em que fui ao banheiro nessa ilha... é suspenso, mas quando fui descer eu pulei, eu cheguei a tocar meu pé na água quando a ilha afundou um pouco, muita aflição... Cheguei a conversar com pessoas que mal falavam espanhol, falavam um dialeto deles, e essas pessoas, várias delas, nunca visitaram uma cidade tradicional. Abaixo algumas fotos dessas ilhas.
 |
| É uma tribo praticamente vivendo de um jeito peculiar |
 |
| O processo de fabricação de suas próprias moradias |
 |
| Tem inclusive fogão... como não pega fogo?? |
Só vendo para acreditar nessa experiência...
 |
| Impressionate o encaixe das pedras em Cuzco |
 |
| Plaza de Armas |
Saindo de Puno (já em terra firme) de ônibus, algo em torno de 7h de viagem chega-se a Cuzco, a antiga capital do império Inca. Cuzco vale a pena cada minuto que se passa lá, a cidade é mágica, recomendo fortemente a todas pessoas. A cidade além de ter muitos atrativos, tem dezenas de sítios arqueológicos ao seu redor. Cuzco respira cultura, é uma cidade viva, cheia de mochileiros de todas as partes do mundo, pubs lotados, praças cheias, idiomas dos mais variados. Recomendo ficar em Cuzco pelo menos uns 3 a 4 dias, e foi o que eu fiz. As pessoas focam muito em Machu Picchu, mas Cuzco é rodeada por sítios arqueológicos dos mais diversos como Pisaq, Ollantaytamtaybo, Tambomachay, e outros. Muitos tão importantes como Machu Picchu. Tem um passe que você compra, custa algo em torno de 15 dólares que te dá o direito de visitar todos esses lugares. Veja algumas fotos.
 |
| Aventuras ao redor de Cuzco... |
 |
| A todo momento se tem sítios arqueológicos |
Para ir a Machu Picchu existe 3 opções. Dá pra ir de ônibus que é a menos usual, não conheci ninguém que fez isso, mas eu sei que existe essa opção. Dá pra ir a pé, fazendo o "camino inca", são 4 dias de caminhada, e dá pra ir de trem, como eu fui. Eu até pensei em ir a pé, mas queria também ir ao Chile e tive que priorizar. O que eu sei é que nesse esquema de ir a pé é no estilo acampamento. Existem agências em Cuzco que organizam esse tipo de aventura e vão pessoas com os turistas para carregar as bagagens, montar as barracas, etc... É uma aventura bem "trash", tenho amigos que fizeram e disseram ser inesquecível, mas dizem que tem hora que você se pergunta "o que estou fazendo aqui?"
 |
| vestimenta típica peruana |
 |
| É muita bonita a plaza de armas |
É chegada a grande hora de ir a Machu Picchu, a cereja do bolo. A passagem do trem não é muito barato, mas a viagem é linda, uma coisa que me lembro bem é que em cima do trem é de vidro para você poder ir visualizando a paisagem. É uma região altamente montanhosa, estamos falando da cordilheira dos andes. O trem gasta 4 horas para chegar em Águas Calientes. Conheci gente que se hospedou lá, mas sinceramente acho desnecessário. É bom observar que Machu Picchu fica no alto de uma montanha então ao chegar em Águas Calientes é necessário pegar uma van que subirá por uma estrada tortuosa até a entrada do sítio arqueológico. Mais ou menos meia hora que se gasta.
 |
| Essa é a primeira visão que se tem ao entrar no sítio |
A entrada em Machu Picchu custava 20 dólares, aquilo é uma mina de ouro. Uma dica legal é levar água e talvez algum lanchinho porque tudo lá em cima é muito caro, preços de padrões internacionais mesmo, lá tem muito europeu, eles enfiam a faca sem dó. Machu Pichu pra quem não sabe é a cidade sagrada dos Incas e foi descoberta em 1910, ou seja, tem pouco mais de 100 anos que esse tesouro foi descoberto pelos "brancos". A sensação quando se chega a Machu Pichu é uma vontade quase de que de chorar de tão bonito que é... Lá se passa o dia inteiro...
 |
| Só alegria... |
 |
| Se parece com um labirinto de pedra |
 |
| lhamas e alpacas ficam soltas no local... |

Depois de uma experiência maravilhosa em Machu Picchu retornei para Cuzco, onde fiquei mais um dia, fiz outros passeios e decidi ir ao Chile. Vale dizer que os preços praticados no Peru são diferentes da Bolívia, são bem mais caros na verdade.
De Cuzco desci até Tacna que já é a última cidade peruana antes da fronteira com o Chile. Lá você tem que descer do ônibus, atravessar a pé a fronteira, passar por uma pequena entrevista e aí você entra no Chile. Ao chegar no Chile já se percebe de cara a grande diferença de organização do país. Ali peguei uma espécie de taxi clandestino (os caras ficam te oferecendo) com mais 3 gringos nunca vistos na minha vida, um sueco, um suíço e um dinamarquês até Arica que já é na região desértica do Chile. Em Arica não há nada pra fazer, fui direto para a rodoviária. Esperei até de noite para pegar um ônibus até Calama, depois baldear para San Pedro de Atacama. Nesse dia tive uma experiência meio louca, o ônibus me soltou de

madrugada em Calama, não tinha nada funcionando na cidade, com exceção de um bar. Entrei para dentro do bar com minhas coisas e tive que tomar uma cerveja para o tempo passar... As 6h da manhã passou o ônibus que eu peguei para chegar em San Pedro de Atacama. A cidadela fica no meio do deserto, casas feitas de adobe e ruas de terra dão um charme especial ao local. Me hospedei em um albergue com um preço razoável, o Chile foi o lugar mais caro da viagem, mas nada assustador. E fiz vários passeios ao Vale de Marte, Vale de la Luna, as paisagens são incrivelmente diferentes de tudo que você já viu na vida. Pra quem não sabe o deserto de atacama é o lugar mais árido do planeta, as precipitações são raras.
 |
| Caminhada no alto de uma duna |
 |
| Esse por do sol é inesquecível |
 |
| Não parece paisagem de filme de ficção científica? |
Uma das coisas mais marcantes foi o dia que fiz uma caminhada no deserto, subi uma duna extremamente alta para ver o por do sol lá de cima... inesquecível.
Fiquei apenas 2 dias inteiros em São Pedro. De lá eu transpus a cordilheira dos Andes e fui até Salta no norte da Argentina. Passando por Jujuy e Tucuman. A viagem durou algo em torno de 10h e é muita poeira, deserto em todos os lados. Mesmo o ônibus sendo todo
fechado com ar condicionado teve muita poeira entrando no ônibus, mas ok... sobrevivi.
Fiquei 2 dias em Salta, me lembrou um pouco como se fosse uma "pequena Buenos Aires", a cidade é bonita, tem um teleférico, praças bonitas, nada demais... mas ok. Não sei se recomendo parar para conhecer, mas a região é bonita, apenas não tem muitos passeios. Talvez eu estivesse também um pouco cansado com a viagem. Uma dica importante é que eu sempre viajava de noite para economizar na hospedagem nos lugares, essa é uma dica que eu deixo aí para os candidatos a essa aventura.

Aproveitei esse momento na Argentina para comer carne, algo que nos países de antes é meio raro ou muito caro. Já na Argentina é bem mais razoável e delicioso.
De lá peguei um ônibus leito (já estava estafado de ônibus convencionais) e fui até Puerto Iguazu, que já é na divisa do Brasil. Aproveitei para visitar as cataratas do Iguaçú, uma das coisas mais belas que já vi na vida. Dormi uma noite e no outro dia peguei um ônibus de volta a BH.
Amigos... essa viagem é pra quem tem coragem. Não existe idade pra fazer uma aventura dessa. Tem pessoas que fazem essa viagem de avião, parando já perto dos lugares de maior apelo turístico. É também uma opção para quem não quer passar pelas aventuras que passei, eu "rasguei" boa parte do continente terrestre, não é pra qualquer um. Tem que querer muito.
Boas lembranças, boas memórias!!
Nenhum comentário:
Postar um comentário